Resumo: Em depósitos polimetálicos, a presença de múltiplos elementos economicamente valiosos dificulta a análise comparativa e a classificação de recursos. O conceito de teor equivalente surge como uma ferramenta fundamental para integrar diferentes metais a partir de um único parâmetro de valor, facilitando a avaliação técnica e econômica. Este artigo discute os fundamentos do cálculo de teor equivalente, sua aplicação em diferentes contextos geoeconômicos, limitações práticas e exemplos reais de sua utilização na indústria mineral. 1. Introdução Depósitos polimetálicos, como os de Cu-Au-Ag, Zn-Pb-Ag ou Cu-Mo-Au, representam desafios singulares para engenheiros de minas e geólogos econômicos devido à diversidade de elementos com diferentes valores de mercado, custos de recuperação e comportamentos metalúrgicos. Para facilitar a avaliação econômica e a comparabilidade entre blocos ou domínios de um depósito, utiliza-se o conceito de teor equivalente (equivalent grade), convertendo todos os teores ao equivalente de um único metal de referência. 2. Conceito de Teor Equivalente O teor equivalente representa o teor de um único metal que geraria o mesmo valor econômico que a combinação de metais presentes. Ele permite, por exemplo, expressar teores de ouro e prata em termos de equivalente ouro (AuEq) ou cobre e molibdênio em termos de equivalente cobre (CuEq). A fórmula básica do teor equivalente é: 2.1 Tipos de Teor Equivalente A aplicação do conceito de teor equivalente pode assumir diferentes abordagens conforme o objetivo do estudo, o nível de conhecimento do depósito e a natureza dos produtos gerados. Os principais tipos de teor equivalente incluem: a) Teor Equivalente Baseado em Preço de Mercado (ou Valor Bruto) Este é o tipo mais comum e representa o valor dos diferentes metais com base nos seus preços brutos de mercado, sem considerar custos de recuperação metalúrgica, transporte ou comercialização. Embora seja útil para comparações iniciais e classificações exploratórias, tende a superestimar o valor real dos componentes do minério. b) Teor Equivalente Metalúrgico (ou Teor Equivalente com Recuperação) Neste caso, as recuperações metalúrgicas são incorporadas no cálculo, tornando o resultado mais representativo da realidade de uma futura operação. É amplamente utilizado em estudos de viabilidade, estimativas de recursos e projetos com definição de rota de processo conhecida. c) Teor Equivalente Econômico (ou Teor Eq com Receita Líquida) Este é o mais completo e acurado, considerando não apenas recuperação metalúrgica, mas também custos operacionais (tratamento, refino, transporte, royalties, penalidades). Converte todos os elementos em valor líquido recuperável em termos de um único metal, podendo ser utilizado para análise econômica de cenários e comparação entre projetos. 3. Aplicações Práticas 3.1 Avaliação Econômica Preliminar Durante estudos de scoping e pré-viabilidade, o teor equivalente fornece uma estimativa simplificada de valor de um corpo mineral, ajudando na seleção de alvos de perfuração ou na modelagem preliminar de recursos. 3.2 Seleção de Cut-off É comum definir o cut-off em termos de teor equivalente, como por exemplo: 4. Exemplo de Cálculo Considere um depósito com os seguintes parâmetros: Teor Cu: 0,5%, Recuperação Cu: 90%, Preço Cu: US$ 9.000/t Teor Au: 0,4 g/t, Recuperação Au: 80%, Preço Au: US$ 2.000/oz 1 oz = 31,1035 g Convertendo o teor de ouro para equivalente cobre: CuEq(Au) = 0.4*(0.80*2000*(1/31.1035))/(0.90*9000) = 0.254% CuEqTotal (Au) = 0.5% + 0.254% = 0.754% 5. Limitações do Método Volatilidade de preços: Alterações nos preços de mercado afetam diretamente os teores equivalentes. Recuperações distintas: Nem todos os metais têm recuperações previsíveis ou constantes. Penalidades metalúrgicas: Certos elementos podem impactar negativamente o processo ou o concentrado final. Riscos jurídicos/fiscais: A comercialização de determinados metais pode ser mais onerosa em certas jurisdições. 6. Considerações Finais O uso de teor equivalente é uma prática consolidada na engenharia de minas, sendo uma ferramenta essencial para análise de viabilidade técnica e econômica de depósitos complexos. No entanto, seu uso deve ser criterioso, sempre baseado em premissas atualizadas de preço, recuperação e fluxo de processo. Referências CRIRSCO (2019). International Reporting Template for the Public Reporting of Exploration Results, Mineral Resources and Mineral Reserves. SME (2011). Mining Engineering Handbook. AusIMM (2020). Monograph 30 - Mineral Resource and Ore Reserve Estimation. JORC Code (2012). Australasian Code for Reporting of Exploration Results, Mineral Resources and Ore Reserves. David Drumond - Engenheiro de Minas/ Doutor em Engenharia de Minas, Metalurgia e Materiais